Capacitação Docente para Educação a Distância: enriquecimento ao ensino presencial
Joni A. Amorim1
Irani Marchiori2
Carmem Pereira3
Eduardo J. P. Coelho4
Silvia Helena Z. Coelho5
Mauro Café6
Introdução
capacitação de professores em Educação a Distância (EAD) na busca pelo enriquecimento do ensino presencial (AMORIM et al., 2005) pode ser vista, hoje, como uma forma de preparar o corpo docente para algo ainda mais ousado: o ensino totalmente virtual. A decisão pelo uso gradativo e crescente das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no ensino tende a fomentar, não apenas a discussão sobre as melhores práticas pedagógicas, como também garantir um ambiente que favoreça a inovação e um crescimento virtuoso que potencialize a aprendizagem (MISKULIN; SILVA; AMORIM, 2005).
Seja através do uso massivo de multimídia, ou do uso de simples fóruns de discussão baseados em textos, não se pode mais pensar no ensino sem considerar as novas formas de motivação e suporte aos alunos. Desta forma, surge a necessidade do corpo docente de realizar capacitações que lhes garantam a oportunidade de tomar contato com uma realidade educacional que vai além da tradicional combinação de livros, textos, giz e lousa.
Neste trabalho relata-se uma experiência envolvendo a formação de professores de uma Instituição de Ensino Superior, na utilização de TIC no suporte ao ensino presencial, tendo como perspectiva futura a viabilização do ensino totalmente virtual de cursos similares.
Educação e Sociedade da Informação
Na atual Sociedade da Informação, torna-se quase uma proeza não se espantar diante de manchetes como: "Falta de iodo ainda ameaça dois bilhões de pessoas no mundo, diz OMS"; "Mudanças no clima ameaçam combate à pobreza"; "Queimadas e desertificação avançam em todo o país, diz IBGE"; "Brasil usa trabalho escravo para destruir Amazônia, diz Independent"; "Brasil desenvolve sensores opto-eletrônicos avançados"; "BNDES aponta desvantagem do Brasil em setores que mais utilizam tecnologia"; "Falta ciência em países em desenvolvimento, alerta ONU".
Com o desenvolvimento cada vez maior das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), as pessoas podem ter à sua disposição (além das ferramentas que potencializam a interação entre pares) um acesso quase instantâneo às mais diferentes notícias. Atônitos, muitos se confundem diante de manchetes que parecem, muitas vezes, incompatíveis. Noticiam-se avanços que podem levar ao fim das doenças mais comuns, ao mesmo tempo em que ainda se noticia fome, escravidão e extinção acelerada de animais e plantas. É nesse aparente caos que se inserem os brasileiros de hoje: um povo branco, pardo, negro e amarelo que se questiona sobre o porquê do persistente subdesenvolvimento diante de um mundo onde robôs descobrem provas da existência de água no passado de Marte e remédios são feitos à base de veneno de caracol marinho.
Entre os principais sinais de desenvolvimento de uma nação, estão a ausência da fome e a exploração sustentável do meio ambiente, com distribuição de renda e melhoria contínua do nível de qualificação da população economicamente ativa. Enquanto certas nações do planeta atingem um nível de desenvolvimento cada vez mais alto, com índices invejáveis de educação, longevidade e renda, o Brasil ainda possui um enorme contingente de pessoas desnutridas e analfabetas, ao mesmo tempo em que se assiste à grave devastação dos preciosos e quase sempre insubstituíveis recursos naturais.
Os países ricos devem seu bem-estar em grande parte aos investimentos em capital intelectual, o que inclui tanto educação como pesquisa científica e tecnológica. Já os países em desenvolvimento ainda enfatizam o capital produtivo com ênfase em equipamentos e infra-estrutura. Ao se analisar o modelo de desenvolvimento brasileiro, percebe-se que predomina historicamente o desinteresse dos governantes com relação à política científica e tecnológica.
Entretanto, a ciência e a tecnologia têm papel fundamental ao indicar possíveis soluções aos problemas atuais, assim como na busca de uma melhoria contínua dos índices de desenvolvimento humano. A importância da educação é unanimemente reconhecida e serve de base não apenas para a formação de novos técnicos, tecnólogos e cientistas, mas também como instrumento de garantia da cidadania. Nesse sentido, a educação permite que cada brasileiro compreenda as transformações constantes e aparentemente desconexas da realidade. Em um quadro de baixa eficiência do sistema educacional, com a decorrente baixa qualidade da aprendizagem, devem ser valorizadas iniciativas de inovação pedagógica (MISKULIN; SILVA; AMORIM, 2005) aliadas a maiores investimentos em instalações, equipamentos, material didático e capacitação docente, de modo a se fomentar um ciclo virtuoso de melhoria.
Idéias, habilidades e conhecimentos, ou seja, recursos humanos, vêm tomando o lugar de outros recursos como maior fonte de vantagem competitiva para as empresas e as nações. No momento atual, o recurso econômico básico já não é mais o capital, os recursos naturais ou o trabalho, mas sim o conhecimento. Em termos econômicos, valor é agora criado por produtividade e inovação, ambos conceitos resultantes das aplicações do conhecimento ao trabalho. Nesse sentido, tanto indivíduos em instituições de diferentes tipos como as instituições em si devem se dedicar à aprendizagem contínua, transformando informação em conhecimento e aplicando este conhecimento na busca de produtividade e inovação.
A inovação é dependente da criatividade, que surge da interação dos pensamentos de uma pessoa com um contexto sócio-cultural. Trata-se de um fenômeno sistêmico ao invés de um fenômeno individual e, por isso, deve ser elaborada de maneira a ser compreensível por outros. Para tanto, as novas tecnologias não apenas viabilizam a comunicação necessária à divulgação de uma possível inovação, como podem também potencializar tal comunicação caso sejam propriamente utilizadas.
No mundo atual, surgem naturalmente novas estratégias de comunicação entre os diversos setores da sociedade devido à crescente convergência das bases sobre as quais se alicerçam a economia, a sociedade e a pedagogia. A alfabetização digital, adquirida e desenvolvida através do uso educacional de TIC, passa a ser de fundamental importância no trabalho e no entretenimento da vida contemporânea.
O Brasil, primeira nação do mundo em desenvolvimento a clonar um animal, possui condições de abordar questões de relevância social e econômica, com reputação internacional no processo. Os exemplos são muitos e incluem o bem sucedido projeto genômico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que estimulou a formação de uma indústria de biotecnologia local comparável àquelas das nações industrializadas. Identificar os genes da cana-de-açúcar, por exemplo, pode vir a aumentar a produtividade do campo, evidência de que esforços de pesquisa são de grande importância econômica. Tal projeto se concretizou como uma colaboração de vários laboratórios nacionais que, em certos momentos, chegou a contar com recursos do setor privado e a ter clientes como o Departamento de Agricultura Americano. Iniciativas como essa, que busquem a solução de problemas relevantes não apenas economicamente, mas também socialmente, devem ter como objetivo, além de fazer ciência de ponta, formar recursos humanos qualificados de modo a favorecer o surgimento de empreendedores com foco na inovação tecnológica.
Por mais que seja evidente que as inovações tecnológicas possam trazer vantagens para as empresas, ainda não parecem claros os motivos pelos quais as empresas brasileiras não inovam, como no chamado “mundo desenvolvido”. Os incentivos à inovação e à pesquisa científica e tecnológica no ambiente produtivo continuam reduzidos, porém é fato que o governo brasileiro tem se mobilizado no sentido de votar leis específicas.
Um dos principais fatores a inibir os investimentos em inovação é a instabilidade da economia brasileira, que força as empresas a sempre planejarem com foco na sobrevivência de curto prazo. Outros fatores seriam: o domínio por empresas multinacionais em alguns setores, a falta de metodologias de avaliação dos resultados dos esforços de inovação privados e públicos, a falta de políticas de aumento do lucro do inovador e a falta de uma instância pública com poder e peso específico para definir e coordenar a política tecnológica. Estes variados fatores, quando combinados, comprometem os esforços de inovação e impedem que se definam objetivos, que se mobilizem instrumentos e que se articulem ações.
Neste novo contexto de busca de produtividade e inovação, cada vez mais a sociedade espera que as escolas promovam a formação de indivíduos criativos e independentes, que possam resolver problemas e gerenciar sua aprendizagem durante toda a vida; que são as qualidades efetivamente promovidas pelo uso de TIC. Uma destas tecnologias é a Internet, que possui grande importância no momento atual.
A Internet está presente na maioria dos países do mundo, tanto nos cenários governamentais como nos acadêmicos e comerciais, e já é vista como uma espécie de estrada mundial da informação. Na perspectiva da importância crescente da ciência e da tecnologia, novas habilidades devem ser desenvolvidas. As habilidades técnicas de utilizar o computador são vistas hoje não apenas como pré-requisitos para certos trabalhos, mas também como habilidades desejáveis a alunos dos diferentes níveis educacionais.
Neste cenário de valorização da educação, da ciência e da tecnologia, tem papel fundamental a democratização do acesso às diferentes soluções que potencializam a comunicação e facilitam o acesso à informação, como a Internet. Ao garantir tal acesso, fazem cada vez mais sentido iniciativas como a do Ministério da Ciência e Tecnologia, intitulada Serviço Brasileiro de Respostas Técnicas. Neste caso, pretende-se facilitar o rápido acesso das empresas a soluções tecnológicas em áreas específicas através do uso da Internet, tanto para coletas de dados como para consulta pública das respostas técnicas publicadas. Este serviço gratuito também pretende promover a difusão do conhecimento e contribuir para o processo de transferência de tecnologia, favorecendo-se deste modo o desenvolvimento nacional.
Desta forma, fica evidente que o sistema de ciência e tecnologia deve se apoiar na formação de recursos humanos, na pesquisa acadêmica e na pesquisa empresarial. Por conseqüência, na busca de um desenvolvimento nacional sustentável, devem ser privilegiados os investimentos em educação, ciência e tecnologia. Deste modo, haverá melhor preparação do Brasil para um cenário de competição internacional crescente, composto por mercados globalizados onde se destacam as nações que favorecem a inovação na busca de novos processos, produtos e serviços. Este país com dimensões continentais e milhões de habitantes deve ter uma política de desenvolvimento científico e tecnológico que alie inovação constante ao empreendedorismo, com substanciais incentivos a investimentos que possam, efetivamente, inserir sua economia nesta nova sociedade da informação, que valoriza cada vez mais a educação. Este processo, no qual se busca a transformação de conhecimento em riqueza, deve garantir uma interação crescente entre Estado e iniciativa privada na busca da solução dos problemas nacionais.
Capacitações e sua Importância
As rápidas mudanças ocorridas na Sociedade do Conhecimento, nas últimas décadas, têm indicado a necessidade de domínio das TIC para a atuação no mercado de trabalho, em especial na área da educação (MARCHIORI, 2001). Neste panorama, estudos e pesquisas científicas realizadas nos últimos anos comprovam a necessidade da formação docente para a utilização da informática como recurso e ferramenta para a otimização do ensino e da aprendizagem. Em vista disso, organizações de diferentes setores e instituições educacionais têm unido esforços para a capacitação tecnológica de professores que atuam nos vários níveis de ensino.
Por ocasião da introdução dos computadores nas escolas, a partir da segunda metade da década de 90, havia uma esperança de que esta tecnologia trouxesse o mesmo tipo de transformação observada no campo da ciência, da indústria e dos negócios.
Em cada uma destas áreas, procedimentos claros combinados com a informática e com outros equipamentos tecnológicos proporcionaram enormes saltos em qualidade e eficiência, facilitando mensurações e cálculos, simulando situações para a experimentação, eliminando erros e até perigos originados de processos repetitivos da atividade humana.
No entanto, parece que esta mudança somente acrescentou mais uma camada de complexidade à prática educativa. Os professores, a maioria despreparados, com orientações precárias, excesso de trabalho, dificuldades pessoais decorrentes, entre outros fatores, do desprestígio profissional e da baixa remuneração, mostram-se, ainda hoje, muitas vezes confusos e estressados tendo que apreender e administrar mais este conjunto de inovações.
As relações dos seres humanos com as máquinas têm sido, ao longo dos tempos, muitas vezes percebidas como algo fora da capacidade da maioria das pessoas que não tiveram oportunidade de desenvolver habilidades, tanto para manejá-las como para compreender as premissas básicas de seu funcionamento. Em função disso, muitos ainda mostram-se preconceituosos e até mesmo temerosos em relação ao manuseio de equipamentos, o que pode levá-los a se sentir incapazes de compreender, analisar e criticar os rumos que tomam tanto as conquistas e as modificações tecnológicas como as concepções e pesquisas que as fundamentam. Provavelmente devido a isso, são percebidas certas incertezas e desconfianças quanto aos objetivos e à utilização de equipamentos tecnológicos, principalmente eletrônicos, por parte de profissionais da área da educação que, em decorrência à sua inexperiência pessoal, preferem não manipulá-los em classe ou incorporá-los às suas aulas (MARCHIORI, 2001).
Ainda, segundo a mesma autora, no sentido inverso, existem educadores que remetem à mera introdução de novas tecnologias no ensino, principalmente de computadores, a esperança de que os alunos saiam da escola bem preparados para o competitivo mercado de trabalho que os aguarda. Desta forma, também incorrem no risco de introduzir a tecnologia somente pela tecnologia, para dar ares de modernidade a um sistema educacional que talvez carregue consigo, em sua essência, uma predisposição ao fracasso adquirida ao longo de gerações.
Como fator favorável à prática da docência, observa-se que a maioria dos professores recém formados apresenta maior índice de motivação e empenho para novas propostas educacionais, em relação aos que estão em final de carreira, pois reagem positivamente aos incentivos e desafios profissionais de seus superiores (HART; MURPHY, 1990). Cientes de seus problemas, uma das alternativas mais utilizadas pelos professores para preencherem suas deficiências específicas parece ser a freqüência a cursos de extensão e aperfeiçoamento. Porém, além da urgente reformulação dos programas e currículos, uma outra solução seria uma maior reflexão a respeito de como melhorar qualitativa e quantitativamente os cursos de formação de docentes em todos os níveis de ensino, o que tem sido defendido por Marchiori (1996) há mais de uma década.
Um dos vários projetos desenvolvidos para a implantação de salas de aula ricas em tecnologia e mais centradas nos alunos, Apple Classrooms of Tomorrow - ACOT (DWYER, 1994), propiciou mecanismos intrínsecos para que os professores pudessem cultivar a reflexão a longo prazo, tais como: gravações em fitas de áudio, relatórios semanais sobre os principais acontecimentos e evoluções, presença de observadores visitantes durante as aulas, telecomunicações para outras escolas e, principalmente, trabalho com pesquisadores ligados às universidades para análise das experiências em sala de aula.
Considerando-se que a mudança de concepções dos indivíduos ocorre de maneira evolutiva, uma abordagem gradual para a incorporação de modificações é a mais adequada. No caso do trabalho com computadores em sala de aula, o primeiro estágio é o da implementação, no qual as preocupações giram em torno do próprio equipamento. Nesta fase, o suporte e treinamento técnico têm uma importante função, reduzindo o estresse e aumentando a confiança dos professores.
Conforme os professores aprendem os princípios básicos de funcionamento do equipamento, precisam ser imersos em um ambiente que construa elos entre a tecnologia, a instrução e a aprendizagem, garantindo acesso suficiente à tecnologia não só para seus alunos como também para si. Há uma maior probabilidade de serem bem sucedidos se participarem deste processo voluntariamente e como membros de uma equipe com o mesmo propósito, de forma a organizar o tempo para que as equipes possam reunir-se rotineiramente.
O tempo é um fator de apoio crucial para o avanço no processo evolutivo, pois neste ínterim os professores devem ter muitas e variadas oportunidades para observarem seus pares, confrontarem suas ações, examinarem seus motivos e refletirem criticamente inclusive a respeito das conseqüências de suas ações, oportunizando-se assim um diálogo contínuo sobre suas experiências (SANDOHOLTZ; RINGSTAFF; DWYER, 1997). O estágio final, particularmente de grande importância, é quando os professores devem escrever sobre suas experiências e divulgá-las, seja através de publicações editoriais, informativos de circulação interna ou através da Internet para que possam partilhar seus novos conhecimentos com outros profissionais.
Entretanto, podem ser feitas advertências importantes quanto à estratégia de se mudar as crenças dos professores como uma condição para a mudança instrucional (SANDOHOLTZ; RINGSTAFF; DWYER, 1997) Podem ocorrer frustrações por estarem ligadas a momentos e pessoas significativos, afetando o comportamento caso a meta e os esforços para a mudança de concepções não sejam um fenômeno organizacional, sistêmico ou cultural. Desta forma, as crenças dos professores só podem ser modificadas quando estes estiverem em meio às dificuldades da mudança (DWYER, 1994).
A necessidade de maiores investimentos na formação tecnológica de docentes e alunos vem sendo discutida por especialistas no mundo todo e muitos projetos governamentais estão em curso. A responsabilidade das instituições em fornecer preparo crítico aos professores que atuarão desde as séries iniciais, passa pela reformulação dos currículos. Nos cursos de licenciatura devem ser incluídas disciplinas que capacitem os professores em formação para a utilização de recursos tecnológicos de informação e comunicação. Esta utilização de recursos não é somente prática, mas crítica e reflexiva no trabalho de mediação, interação e compartilhamento significativo de conhecimentos em ambientes educacionais reais e virtuais.
Uma proposta curricular pautada na incorporação de TIC para ensino e aprendizagem interdisciplinar em nível superior, está em andamento nos cursos Normal Superior e Pedagogia das Faculdades Integradas Metropolitanas de Campinas (METROCAMP) desde o ano 2003, ao mesmo tempo em que se desenvolve uma pesquisa longitudinal sobre os efeitos dessa formação nos alunos e professores do curso, sujeitos da investigação.
Os projetos pedagógicos dos cursos, para as habilitações em Educação Infantil e Anos Iniciais do Ensino Fundamental e Gestão Escolar, enfatizam a necessidade do domínio das mais modernas tecnologias de informação e comunicação e do uso de ferramentas computacionais para acesso a informações de última geração e exercício ágil da profissão, de forma a aumentar as possibilidades de aprendizagem dos alunos (METROCAMP, 2002).
A área de Tecnologia Aplicada à Educação do Curso Normal Superior e Pedagogia da IES engloba quatro disciplinas que objetivam propiciar aos alunos uma formação, ao mesmo tempo abrangente e profunda no campo das TIC, visando a produção e sistematização de conhecimentos.
Os laboratórios de informática, onde são ministradas as aulas, são usados como espaços colaborativos de construção de conhecimento e desenvolvimento de pesquisas. Notamos que a incorporação dessas novas competências ao longo do curso traz efetivas contribuições à educação dos estudantes universitários.
Capacitação de Docentes em EAD na METROCAMP
Nossa IES iniciou oficialmente suas atividades em Educação a Distância (EAD) no ano de 2006, na cidade de Campinas, SP. O município faz parte do Sistema Paulista de Parques Tecnológicos do Estado de São Paulo e há uma forte tendência a considerar as TIC como o foco natural do Parque de Campinas, em especial no que se refere à Internet e à TV digital.
Nesse contexto de informatização, cada vez maior da região, a METROCAMP brevemente oferecerá diferentes cursos na modalidade EAD tendo como suporte ambientes para a criação, participação e administração de cursos na Internet. A iniciativa da instituição foi denominada MetroEAD (MARCHIORI et al., 2006) e o ambiente a ser utilizado neste momento inicial é o software livre TelEduc (AMORIM; BELLOTTI; SILVA, 2006), desenvolvido no Brasil.
Além da criação de uma Equipe Gestora específica e da montagem de uma infra-estrutura de hardware e software, também foi criado um Portal na Internet para que tanto a comunidade interna como a externa pudessem acompanhar as diferentes atividades relacionadas a esta iniciativa. Neste Portal, tem especial destaque a menção ao Pólo da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED) em Campinas, que passou a ser sediado na METROCAMP desde o dia 10 de abril de 2006.
O objetivo geral é apoiar e dar suporte às iniciativas de EAD na IES, para promover a interatividade e a interação entre as comunidades interna e externa (MARCHIORI et al., 2006). Entre os objetivos específicos, busca-se integrar a comunidade acadêmica através de ambientes virtuais de aprendizagem e do compartilhamento de informações e conhecimentos, além de desenvolver cursos de capacitação, extensão, graduação e pós-graduação na modalidade EAD. Em paralelo, busca-se criar e desenvolver Comunidades Virtuais de Aprendizagem e promover estudos, debates e pesquisas sobre temas relacionados a EAD.
Considerando ser fundamental a participação do maior número possível de professores para a implementação de ações significativas no processo, que se refere à qualificação pedagógica do corpo docente, foi organizado o Programa de Capacitação Pedagógica Continuada da IES, que apresenta os seguintes objetivos: (a) atender demandas de capacitação pedagógica de docentes dos diferentes cursos; (b) realizar cursos, palestras e oficinas para o atendimento às necessidades de capacitação didático-pedagógica do corpo docente dos cursos de graduação e pós-graduação; (c) subsidiar o processo de reflexão do Projeto Político Pedagógico com elementos teórico-práticos.
O público-alvo do Programa é composto pelo corpo docente dos cursos de graduação e pós-graduação. No que se refere a EAD, o primeiro passo em termos de capacitação de professores envolveu uma busca pelo enriquecimento do ensino presencial através do oferecimento de um mini curso de oito horas no qual o ambiente TelEduc era apresentado (AMORIM; BELLOTTI; SILVA, 2006). A capacitação inicial foi dividida em dois encontros, chamados Unidade 1 e Unidade 2. Na Unidade 1, os professores eram convidados, inicialmente, a visitar algumas páginas da Internet onde podiam encontrar bibliografia de apoio com diferentes informações relevantes, incluindo-se também apostilas de suporte à utilização do ambiente. Em seguida, após cadastro no TelEduc, recebia-se a senha.
A partir disso, os professores eram convidados a utilizar o ambiente como se fossem alunos. O objetivo era uma melhor compreensão das eventuais dificuldades de utilização pelos alunos, em momentos posteriores, durante o semestre. Esta oportunidade de atuar como um aluno dentro do ambiente se mostrou essencial, pois este era o primeiro contato da maioria dos docentes com a EAD.
Tal acesso ocorreu em conjunto com o palestrante e fez-se uso das diferentes ferramentas, com destaque para "AGENDA", "ATIVIDADES", "CONFIGURAR", "DINÂMICA DO CURSO", "FÓRUNS DE DISCUSSÃO", "PORTFÓLIO", "CORREIO", "PERFIL" e "MATERIAL DE APOIO".
O intervalo foi utilizado como um momento de descontração, focado na livre troca de idéias entre os professores sobre o tema EAD e também permitiu aos docentes elucidarem suas dúvidas. Após o intervalo, teve início a utilização do TelEduc por cada Professor como um Formador, onde cada docente utilizou seu próprio espaço no TelEduc para colocar os arquivos de sua disciplina.
A Unidade 1 foi concluída com a apresentação de dicas diversas sobre informática, o que incluiu: (a) como buscar imagens na Internet; (b) como salvar imagens; (c) como incluir imagens e “links” (endereços) em um texto para poder elaborar hipertextos adequados ao ambiente TelEduc; (d) como gerar HTML utilizando um editor de textos simples; (e) como compactar arquivos e pastas; (f) como anexar e ocultar arquivos e pastas no TelEduc; (g) como gerar PDF.
Na Unidade 2, os professores foram convidados a apresentar suas salas virtuais preparadas para cada disciplina. Assim, cada docente apresentava aos demais a sua utilização do TelEduc e tiravam suas dúvidas com o palestrante de uma maneira bastante dinâmica e motivadora.
Mais possibilidades para a utilização do TelEduc foram mostradas na Unidade 2, com a introdução de novas ferramentas, após a conclusão das diferentes apresentações, onde houve troca de idéias.
Esta breve capacitação de oito horas foi concluída com um convite a cada docente, para que melhorasse sua sala virtual tomando como base as sugestões dadas pelos colegas. Foi sugerida como atividade final, a possibilidade de se trabalhar em dupla com um colega para realizar alterações dentro do ambiente, caso o professor não quisesse trabalhar individualmente ou tirar dúvidas.
Cada docente recebeu o certificado de participação emitido pela instituição. Com isso, estes docentes puderam se qualificar para, posteriormente, matricularem-se em novos cursos de longa duração.
Avaliação da Capacitação
Ainda que o objetivo desta capacitação fosse atingir de imediato a totalidade dos professores, notou-se desde o início uma grande resistência.
Assim, buscou-se compreender quais as razões de tal postura com relação a EAD. Além de quase sempre alegarem a falta de tempo para participar de capacitações, muitos dos professores resistentes indicavam a insegurança quanto à utilização de informática, o que os levava a continuar no mundo do quadro branco e material áudio-visual, com o qual já estavam habituados na Instituição.
Uma outra razão importante para a resistência ao uso da EAD, era o fato dos participantes associarem tal modalidade a possíveis falhas na qualidade de ensino em sala de aula, motivo pelo qual não faria sentido sequer considerar o uso de um ambiente como o TelEduc no suporte ao ensino presencial. Por fim, houve um grupo de professores que afirmou já conhecer suficientemente informática, alegando não precisar passar por uma capacitação relacionada a EAD, já que dominavam e utilizavam a ferramenta em outras IES.
Mesmo não atingindo a totalidade dos docentes, a capacitação foi bem sucedida. Os professores participantes começaram a utilizar o ambiente no suporte às suas aulas, conforme se objetivava. Também por esse motivo, os professores resistentes lentamente foram convencidos pelos demais das vantagens do uso da Internet em educação, vencendo-se assim a resistência inicial.
No que se refere à avaliação do desempenho dos professores, optou-se por não utilizar as formas tradicionais, dado que o público era composto basicamente de mestres e doutores que apresentavam uma postura bastante responsável relativa à aprendizagem. Deste modo, optou-se por uma avaliação informal.
Levando-se em consideração que a avaliação ocorre em diversas situações e são feitas apreciações a todo momento, percebe-se que no ensino isso ocorre com algumas diferenças, pois a avaliação do aproveitamento do estudante pode ser realizada de maneira formal e informal. A avaliação formal, realizada através de provas, exercícios e trabalhos, vem acompanhada por uma nota, conceito ou menção.
Já a avaliação informal é aquela que se dá pela interação entre professor e aluno, ao realizar um exercício, uma pergunta ou alguma colocação onde o aluno é analisado e/ou avaliado pelo professor. A grande diferença entre a avaliação formal e a informal é que, muitas vezes, na informal os sujeitos não têm medo de serem avaliados e, portanto, o professor deve manter uma postura ética. As informações obtidas em ambas as avaliações compõem uma avaliação formativa.
É importante apontar a diferença entre avaliar e examinar e levar em consideração a diversidade dos sujeitos, pois se deve pensar a avaliação como includente, não pontual e dinâmica, ao contrário do exame tradicional que é pontual, excludente e classificatório (LUCKESI, 1996).
Assim, a avaliação do desempenho dos professores é realizada pelo responsável da capacitação, que deve acompanhar a evolução dos docentes através da interação contínua com os mesmos. Em especial, as apresentações realizadas pelos docentes no início da Unidade 2 permitiram avaliar se haviam alcançado o nível mínimo necessário de entendimento do ambiente e, em raros casos, certos docentes foram convidados a participar de um terceiro encontro, a fim de compensar qualquer falha eventual.
Desta forma, coube à avaliação informal ajudar cada professor a se desenvolver e a progredir no processo de aprendizagem, identificando de maneira menos constrangedora o que ainda não estava bem compreendido.
Considerações Finais
A capacitação docente, muitas vezes, é um desafio, dada a resistência ao uso da tecnologia que muitos professores ainda apresentam. Esta oposição ao novo parece alicerçar-se no receio da perda da qualidade que se associa à EAD, ainda que geralmente o objetivo das iniciativas seja o oposto. No caso do ensino presencial, a utilização de ambientes desenvolvidos para EAD pode oferecer um suporte que tende a enriquecer os processos de ensino e aprendizagem, complementando as tradicionais soluções muitas vezes baseadas apenas em livros impressos, giz e lousa (AMORIM et al., 2005).
No presente trabalho, explicitou-se como uma iniciativa institucional ofereceu aos professores a oportunidade de ter um contato inicial tanto com o conceito de EAD como também com os ambientes que lhe dão suporte (MARCHIORI et al., 2006). Buscou-se, em um primeiro momento, fornecer uma capacitação relativa ao uso da Internet no suporte ao ensino presencial.
O suporte ao ensino presencial seria apenas um primeiro passo na direção de sensibilizar toda uma comunidade para o que ainda estaria por vir: o ensino totalmente virtual seja no nível de graduação, seja no de pós-graduação (AMORIM et al., 2005). Assim, tem papel fundamental neste contexto a capacitação de docentes em atividade no uso de soluções de hardware e software focados em educação, fomentando-se a inovação pedagógica (MISKULIN; SILVA; AMORIM, 2005) através da incorporação da tecnologia à prática docente.
Referências
AMORIM, J. A. et al. Uso do Teleduc como um recurso complementar no ensino presencial. Revista Brasileira de Aprendizagem Aberta e a Distância, ABED, v. 3, n. 1, 2005.
AMORIM, J. A.; BELLOTTI, K. K.; SILVA, E. M. Distance, flexible and ICT-based education in Brazil. Learning Technology Newsletter, IEEE Computer Society, Technical Committee on Learning Technology (TCLT), v. 8, n. 3, p. 18-19, 2006.
DWYER, D. Apple classrooms of tomorrow: what we've learned. Educational Leadership, v. 51, n. 5, p. 4-10, 1994.
HART, A. W.; MURPHY, M. J. New teachers react to redesigned teacher work. American Journal of Education, v. 98, n. 3, p. 225-250, may 1990.
LUCKESI, C. C. Avaliação da aprendizagem escolar: estudos e proposições. São Paulo: Cortez, 1996.
MARCHIORI, I. C. O professor pré-escolar e o ensino de Ciências na educação infantil. 1996. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Pontifícia Universidade Católica, Campinas, 1996.
______. A concepção de tecnologia em professores e alunos do ensino fundamental. 2001. Tese (Doutorado em Psicologia) - Pontifícia Universidade Católica, Campinas, 2001.
MARCHIORI, I. et al. Promoting quality through an Integration Center for Distance Education: pedagogical, technological and organizational aspects. In: ICDE WORLD CONFERENCE ON DISTANCE EDUCATION, 22., 2006, Rio de Janeiro. Proceedings … ICDE World Conference, 2006.
METROCAMP. Faculdades Integradas Metropolitanas de Campinas. Projeto Pedagógico do Curso Normal Superior. Campinas, 2002.
MISKULIN, R. G. S.; SILVA, M. R. C.; AMORIM, J. A. A implementação do ambiente computacional TelEduc e suas influências na prática pedagógica de professores em formação. In: CONGRESSO IBERO-AMERICANO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA, 5., 2005, Porto, Portugal. Actas... CIBEM, 2005. p. 1-16.
SANDOHOLTZ, J. H.; RINGSTAFF, C.; DWYER, C. D. Ensinado com tecnologia: criando salas de aula centradas nos alunos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
1Mestre em Engenharia Elétrica e matemático. Professor da UNICAMP e da METROCAMP. E-mail para contato: amorimja@yahoo.com
2Doutora em Psicologia, Mestre em Psicologia Escolar, Pedagoga. Professora da Faculdade Municipal Prof. Franco Montoro, em Mogi Guaçu e da METROCAMP. E-mail para contato: iranimarchiori@yahoo.com.br
3Mestre em Ensino Superior, Pedagoga. Professora da METROCAMP. E-mail para contato: carmem.e@uol.com.br
4Mestre em Engenharia Civil, Engenheiro Civil. Diretor Geral da METROCAMP. E-mail para contato: eduardo.coelho@metrocamp.com.br
5Mestre em Multimeios, Engenheira Civil. Diretora de Comunicação e Marketing na METROCAMP. E-mail para contato: silviacoelho.mkt@metrocamp.com.br
6Especialista em Análise de Sistemas, Tecnólogo em Processamento de Dados. Coordenador do Centro Tecnológico e Informática da METROCAMP. E-mail para contato: mauro.cafe@metrocamp.com.br
|